Resian logo Resian Download PDF
Por Jefferson Souza · Edição Nº 12 · 2 de novembro de 2026 · As opiniões expressas são pessoais e não representam as de qualquer empregador. Início · Publicações · Newsletter
AbstractAn AI agent is a language model surrounded by layers that define what it knows, what it can do and what it must never do. This article explains how an agent works from the inside out: first the difference between an assistant, a workflow and an agent; then the core, the language model, with its strengths and limits; and finally the three-layer harness around it: context, orchestration and authority, the last being the set of rules applied outside the model that the agent cannot override. A single collections case is followed through every layer, with Brazilian references such as LGPD article 20 and CMN Resolution 4,893 as amended in December 2025. The edition closes with a monthly AI radar focused on what reaches the end user.
Edição Nº 12 · IA aplicada

Anatomia de um agente de IA: o modelo no centro e o que vem em volta

Um agente de IA é um modelo de linguagem cercado por camadas que definem o que ele sabe, o que ele faz e o que ele não pode fazer. É nessas camadas que estão hoje o valor e o risco.

Todos os direitos reservados 2026

Peça a um assistente de IA para renegociar uma dívida e ele vai responder com fluência. Vai explicar o que é um acordo, sugerir um desconto razoável e talvez até redigir a mensagem. O que ele não consegue fazer sozinho é saber quanto você deve, consultar a política do credor, calcular a proposta e registrar o acordo. Para isso, o modelo de linguagem precisa de algo em volta.

Essa é a diferença entre um modelo e um agente. O modelo é a inteligência: interpreta o pedido e raciocina sobre ele. O agente é o modelo mais as camadas que dizem o que ele sabe, o que ele pode fazer e o que ele não pode fazer de jeito nenhum. É nessas camadas, e não no modelo, que estão hoje a maior parte do valor e do risco.

O que este artigo cobre
01
Do chatbot ao agente
Assistente, workflow e agente: o que muda de um para o outro
02
O núcleo
O que o modelo de linguagem faz bem e o que ele não faz
03
As três camadas em volta
Contexto, orquestração e autoridade: o harness
04
Um acordo de cobrança, camada por camada
Um pedido real percorrendo o agente de ponta a ponta
05
Radar de IA
Os fatos do mês que chegam ao usuário final
Glossário rápido
LLM
Modelo de linguagem de grande porte, treinado em grandes volumes de texto. É o “cérebro” de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude.
SLM
Modelo de linguagem menor, mais barato e mais rápido, usado em tarefas específicas.
Prompt
A instrução em texto que o modelo recebe.
Ferramenta
Qualquer sistema que o agente pode acionar, como uma consulta a banco de dados, uma calculadora ou o envio de uma mensagem.
Harness
A estrutura que cerca o modelo e o conecta ao mundo.
Alçada
O limite de decisão de quem negocia, por exemplo o desconto máximo que pode conceder.
Trilha de auditoria
O registro de quem fez o quê, quando e com base em quê.

Do chatbot ao agente

Nem toda aplicação de IA é um agente. Vale separar três desenhos, do mais simples ao mais autônomo.

O ciclo de um agente Um pedido entra no agente, que repete um ciclo de quatro etapas: entende o pedido, decide o próximo passo, age usando uma ferramenta e observa o resultado. A cada volta, a etapa de decisão pode concluir a tarefa ou escalar o caso para uma pessoa. CICLO repete até concluir ENTRADA Pedido SAÍDAS Conclui a tarefa Escala para uma pessoa Entende interpreta o pedido Decide escolhe o próximo passo Age usa uma ferramenta Observa lê o resultado feito pelo modelo feito com ferramentas e sistemas
Figura 1. O ciclo de um agente. Elaboração do autor.

A distinção entre workflow e agente vem de um texto de referência da Anthropic, de dezembro de 2024. Ele recomendava começar pela solução mais simples possível e só aumentar a complexidade quando necessário. O conselho continua valendo: muito do que hoje se vende como agente é, e deveria ser, um workflow bem desenhado.

O núcleo: o que o modelo faz e o que não faz

No centro de qualquer agente está um modelo de linguagem: um LLM ou, em tarefas mais restritas, um SLM. O modelo foi treinado para prever a continuação mais provável de um texto. Na prática, isso o torna bom em interpretar pedidos escritos de formas diferentes, resumir, classificar e raciocinar sobre o que recebe.

Para quem decide, três limites importam mais do que essas qualidades:

Esses limites ajudam a explicar por que os próprios provedores passaram a tratar o modelo como peça substituível. O agente que o Google lançou para empresas em 8 de outubro escolhe, por padrão, o modelo mais adequado para cada tarefa. O cliente pode trocar por outro, inclusive de terceiros, a começar pelo Claude, da Anthropic. A Microsoft foi mais direta. Hayete Gallot, responsável pela área de segurança da empresa, afirmou que “frontier models, regardless of their origin, cannot be trusted”: modelos de fronteira, qualquer que seja a origem, não são confiáveis.

Quem compra “o melhor modelo do momento” compra o item que mais rápido se substitui. O que não se troca com um novo contrato é o que está em volta dele.

As três camadas em volta: o harness

Em engenharia de agentes, harness é o nome dado à estrutura que cerca o modelo e o conecta ao mundo. Proponho lê-lo em três camadas, do centro para a borda.

O núcleo e as três camadas do harness Quatro anéis concêntricos. No centro, o núcleo: o modelo de linguagem (LLM). Em volta, a camada de contexto, depois a de orquestração e, na borda, a camada de autoridade, aplicada fora do modelo. As camadas 2 a 4 formam o harness. 1 · NÚCLEO LLM o modelo 2 · CONTEXTO 3 · ORQUESTRAÇÃO 4 · AUTORIDADE aplicada fora do modelo HARNESS camadas 2 a 4
1
Núcleo (LLM)
FazInterpreta e raciocina
Em cobrançaEntende o pedido de acordo
2
Contexto
FazEntrega os dados certos na hora certa
Em cobrançaSaldo, atraso, histórico, política
3
Orquestração
FazDecide a sequência e aciona ferramentas
Em cobrançaSimula opções, escala para negociador
4
Autoridade
FazLimita o que o agente pode fazer, fora do modelo
Em cobrançaAlçada, trilha, interrupção
Figura 2. O núcleo e as três camadas do harness. Elaboração do autor.

A ordem importa. A autoridade fica na borda porque precisa valer mesmo quando as camadas internas falham. Foi o desenho que a Microsoft colocou em versão final em 7 de outubro. Com os Microsoft Execution Containers, a organização define quais arquivos e redes um agente pode alcançar, e a regra é aplicada em tempo de execução, fora do agente. Satya Nadella, CEO da Microsoft, resumiu a ideia em uma frase:

“We need to separate the supply of intelligence from the authority over it.”Em tradução livre: é preciso separar a oferta de inteligência da autoridade sobre ela.

Um acordo de cobrança, camada por camada

Para ver as camadas funcionando, vale seguir um único pedido. Um cliente com uma parcela em atraso escreve no WhatsApp do credor: “quero fazer um acordo”.

O ponto central está na etapa 4. Em crédito e cobrança, a camada de autoridade tem um nome conhecido: alçada. Uma alçada escrita no prompt é uma sugestão ao modelo. Uma alçada aplicada fora dele é uma regra. A edição Nº 07 detalhou esse desenho com grafos de decisão.

Três consequências práticas:

Enquanto isso, o Marco Legal da IA (PL 2338/2023), aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, segue aguardando o parecer do relator na comissão especial da Câmara.

Conclusão

Um agente útil e seguro não nasce da API mais cara do momento. Ele nasce de decisões tomadas antes: que dados recebe, que caminhos pode seguir e, principalmente, quem tem autoridade sobre o que ele faz.

A pergunta para a liderança é simples:

Na sua operação, quem tem autoridade sobre o que o agente faz, e onde essa regra está escrita fora do modelo?

Radar de IA: outubro de 2026

Este texto expressa exclusivamente a opinião pessoal do autor, construída a partir de fontes públicas. Não representa a visão de nenhum empregador, atual ou anterior, e não usa informação interna de nenhuma instituição.

Referências

01
Schluntz, Erik; Zhang, Barry. Building effective agents. Anthropic, 19 dez. 2024. anthropic.com. Acesso em: 25 out. 2026.
02
Perez, Sarah. Google brings agentic AI to Gemini, starting with businesses. TechCrunch, 8 out. 2026. techcrunch.com. Acesso em: 25 out. 2026.
03
Bort, Julie. Microsoft says AI agents are like insider threats as ‘frontier models can’t be trusted’. TechCrunch, 19 out. 2026. techcrunch.com. Acesso em: 25 out. 2026.
04
Davuluri, Pavan. Building Windows for hybrid intelligence. Windows Experience Blog, Microsoft, 7 out. 2026. blogs.windows.com. Acesso em: 25 out. 2026.
05
Banco do Brasil. BB é pioneiro global em diretrizes para IA generativa e agêntica. Portal de Imprensa do Banco do Brasil. imprensa.bb.com.br. Acesso em: 25 out. 2026.
06
Brasil. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), art. 20. planalto.gov.br. Acesso em: 25 out. 2026.
07
Conselho Monetário Nacional. Resolução CMN nº 5.274, de 18 de dezembro de 2025, que altera a Resolução CMN nº 4.893, de 26 de fevereiro de 2021. legisweb.com.br. Acesso em: 25 out. 2026.
08
Câmara dos Deputados. PL 2338/2023: ficha de tramitação. camara.leg.br. Acesso em: 25 out. 2026.
09
Ropek, Lucas. ChatGPT is getting a lot more visual, with the launch of a new interface. TechCrunch, 7 out. 2026. techcrunch.com. Acesso em: 25 out. 2026.
10
Daryanani, Karan. Get hands-free personalized help on the road with Gemini. Google Blog, 20 out. 2026. blog.google. Acesso em: 25 out. 2026.
11
Del Carmen, Gabriela. Brasil lidera comércio agêntico no Ocidente, aponta Global Payments. Startups, 14 out. 2026. startups.com.br. Acesso em: 25 out. 2026.
12
Rezende, Camila. WhatsApp Business: nova cobrança de mensagens com IA em 2026. AI Brasil, 19 out. 2026. aibrasil.ai. Acesso em: 25 out. 2026.
13
TI Inside. Golpes com deepfake disparam 830% no Brasil e já respondem por 1 em cada 15 fraudes do país. 15 set. 2026. tiinside.com.br. Acesso em: 25 out. 2026.

“Resiliência analítica, aplicada.”